segunda-feira, 31 de agosto de 2009

- Uma esmola, pelo amor de Deus! -

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Hoje tinha tudo pra ser uma segunda-feira normal: muito trabalho - sério, tenho trabalhado tanto, que mal encontrando tempo pra "twittar" durante o dia -, soneca depois do almoço na casa da vovó, academia... Sim, fui correr hoje depois de ter ido só uma vez na semana passada. Agora vou ter que dobrar a intensidade pra compensar os dias perdidos e alguns excessos cometidos pelo prazer... er, digo... pelo pecado da gula.

Na volta da academia, passei na farmácia pra comprar alguns objetos de higiene pessoal quando, ainda no estacionamento, um senhor veio falar comigo. Magro, alto, um pano na cabeça e no escuro. Na hora eu pensei: "pronto, me fodi! Vai me roubar, levar o carro, me esfaquear e me deixar aqui sangrando. Qual o número do SAMU mesmo?". Mas mantive a calma e procurei ouvir o que ele tinha a me dizer.

Posso falar? Antes ele tivesse mesmo me assaltado, levado o carro e me esfaqueado. Pelo menos amanhã eu estaria estampado no "Super Notícia" - o jornal mais vendido do Brasil, comercializado aqui em BH e região por vinte e cinco centavos. O típico jornal que se torcer, sai sangue -, entraria pras estatísticas de violência na região metropolitana e daria entrada no seguro pra pegar um carro novo. Mas não, o cara veio com um papo que tava com dificuldades financeiras, que tava passando fome e que não tinha almoçado hoje, pras filhas poderem comer. As filhas, menos a mais nova, que tem alergia à comida e só pode tomar água e Leite NAN. Gente, o cara disse que a filha tem REFLUXO quando come outras coisas. Sério, o mendigo gastou o português dizendo "refluxo". Na hora, senti uma vibe "Fantástico" no ar - ontem mostraram uma reportagem com crianças alérgicas que só podem tomar esse tipo de leite - e continuei ouvindo aquela história sem a menor criatividade.

Entrei pra drogaria, separei o que eu tava precisando e, só por curiosidade, fui olhar o preço da lata do tal leite que a filha do cara precisa. Quarenta reais!!! Será que ele tava me achando com cara de patrão? Logo eu, um simples impressor falido?! Não é possível, ?! Ou vai ver me confundiu com o Renato Aragão e me achou com cara de embaixador da UNICEF e do Criança Esperança, só pode.

Descartada qualquer possibilidade de comprar o que ele me encomendou, paguei as minhas coisas e fui pro carro. Ele tava longe quando me viu voltando e correu pro meu lado. Quando eu disse que não tinha comprado o leite, achei que aquela seria a hora do esfaqueamento. O cara me olhou com sangue no olho, tipo "mendigo with laser". Fiquei só esperando a hora que ele fosse voar no meu pescoço ou enfiar a faca no meu bucho, mas pra minha sorte, ele só deu uma resmungada e saiu de perto. Caso contrário, não estaria aqui contando isso pra vocês.

No caminho de volta pra casa, tava me achando um criminoso por não ter comprado o leitinho "pras criança" do cara e uma dúvida não saía da minha cabeça: qual a lei que me obriga a dar esmola, hein?!


Felipe Linhares
31 de agosto

[Esmola - Skank]

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